Maria Ivone Vairinho e Poetas Amigos

Junho 26 2010

Não sei descrever filósofos

nem sei sondar os deuses

enquanto me agito

em pensamentos loucos

numa intensa e desmedida

vontade de viver a vida.

 

Avanço no tempo que se esvai

e meu sentimento

meio deslumbrado

é o de querer saber o que alcanço

por isso, vou, avanço

e não escondo cada lamento.

 

Não encontro o depois

pois me assustam os abismos

da existência humana

e toda a rebeldia insana

do meu ser se exalta

sem nada descodificar.

 

Cada passo que dou

me sustenta a mente

e ando de imaginação exigente

para lá de nós

sem que o descubra

ou oiça do além o som de alguma voz.

 

21.06.2010

 

Mário Matta e Silva

Postado por Liliana Josué

 

 

publicado por cantaresdoespirito às 21:38

Junho 26 2010

É como fazer uma viagem

no tempo incerto

agitado, e assim

voltar atrás , ir lá bem longe

nos anos de vida percorridos

revivendo a criança que fui

sem esconder rebeldias

numa folgazona miragem

de avanços destemidos.

 

Quantos anos passados

dos meninos traquinas

que conhecidos lá na rua

onde se desdobrava a lua

em tantas noites sonhadas

por montes, rios, ravinas

corridas por inteiro

nesse tempo de gesto verdadeiro

sobre a virgindade afectuosa

hora gentil e calorosa

da minha meninice.

 

Quem disse que estou a reviver

(tornar a viver… ou relembrar?)

não sei se bem se engana

que o gozo, a fama

da rapaziada

brotou de tudo o que era bom

desfez-se em nada

porque nem a doçura

ficou dessa criança

onde se renovou a esperança

de ser homem vivido

destemido

e gigante.

 

O que eu fora antes não esqueci

hoje me lembrei, senti

o que quedou algures já bem distante.

 

21.06.2010

 

Mário Matta e Silva

Postado por Liliana Josué

publicado por cantaresdoespirito às 21:36

Junho 26 2010

 

É bom

avançar sem tempo

sem medida nem lamento

e sentir na brisa um leve alento

que nos atraia

sem enfraquecer

nosso querer

até que a desilusão se esfume

e cresça em nós o lume

deste viver.

 

É bom

seguir teus passos

e é delicioso

o teu abraço

de uma amizade

desvendada ao longo do tempo

num remoinho caprichoso

que ronda o teu regaço

sem leviandade.

 

É bom

gostar de ti

como se gosta da vida

à flor da pele sentida

num olhar desvanecido

que nos mexe nos sentidos

e nos anima a alma

despontada por aí

imensa, fraterna, calma.

 

21.06.2010

 

Mário Matta e Silva

Postado por Liliana Josué

 

 

 

publicado por cantaresdoespirito às 21:32

Junho 17 2010

( viagem no surrealismo)

 

Há uma janela que não respira

Amorfa, sem vida

Que olha da parede para mim.

Não resguarda gente do frio

Não se abre para o jardim

Meio esgotado e selvagem.

A magia daquela janela

É não querer ser ela.

Sim, uma janela mostra o interior

Escancara-se para o exterior

Geme nas ferragens

E faz-se carcomida nas madeiras

Mas tenta representar pessoas, sensações, luz.

Aquela janela meus calafrios produz

Para além de imaginações perversas

Um verdadeiro estertor

Uma agonia sem arquitectura nem brios

Sem reposteiros ou cortinas de renda

Onde o pó cresce em camadas

E os gatos não se aproximam

Mostrando seus olhos celestes

E seus veludos de pelo.

Aquela janela suscita-me o nada

O vazio

Um torpor frio

De um sem abrigo

E há ali praga, abismo, inimigo

Que lhe põe mau olhado

Que lhe tirou o bafo, as vozes, os movimentos.

Não mostra mulher ou homem no seu interior

Nem crianças, nem velhos

Nem canário empoleirado

Nem quadros pendurados

Ou um pano correndo meigo pelos vidros

A limpá-los da sujidade acumulada

Mostrando o esqueleto que a trás emoldurada

E perra talvez, quem sabe.

Não mostra mulher de pijama ou nua

Nem homem de tronco aberto ou camisola interior

Ou idosa de carrapito fazendo crochet

Nem o saltar na frigideira de uma omeleta

Que seja, para acalentar o estômago enraivecido…

E eu pergunto-me desiludido

O que faz ali aquela janela

De olhos tristes… corpo abandonado?

 

Numa parede esquadrinhada

Sabe-se lá quando e por quem

Ela consome-se no tempo

Empena-se nas intempéries

Suportando ventos agrestes

Na companhia de uma acácia, dois ciprestes

E tendo ainda a admirá-la um banco de jardim

Onde os cães mijam quando a lua vem no fim

De cada tarde morna que a bafeja.

Não há vida que se veja

Casa adentro e a porta tem ferros a trancá-la

Mostrando que a casa se cala

Desde há muito

Sem palpitações

Como que num estado de coma

Alheado a tudo e a todos

Em melancolias tais

Indiferente aos vendavais.

Cada vez que ali paro admiro a sua postura

A envelhecer de madura

Madeiras rangendo de tristeza.

 

A última vez, com os olhos e a alma

Ganhei forças, perdi a calma

Quando a vi

E arranquei-a para que não se tornasse

Mais um escombro, um esqueleto

E em moldes de cântico de velório

Tentei oferecer-lhe frescura

Pintei-a, fiz uma moldura na sua moldura

Pendurei-a no escritório.

 

08.09.2008

Mário Matta e Silva

Postado por Liliana Josué

 

publicado por cantaresdoespirito às 22:03

Junho 17 2010

Quero recordar a meninice

A juventude

O tempo decorrido

E alguma caturrice

Que nos envaidece e nos ilude.

Tumulto na idade desvanecido.

 

E lembro a sofrida

Inquietude

De tudo querer agarrar e entender

Chama apagada, idade perdida;

Mão terna em franca plenitude

Afagada mater não desvanecida.

 

Os anos acumularam Outonos

(feitos de sonhos

sofridos ou risonhos)

E caminhos sinuosos

Enxugando lutos tenebrosos.

No auge, teias de encontros carinhosos

 

E foi desses encontros que a luz

Em parto me expulsou

E iluminou

O caminho de pranto percorrido

Feito de emoção

Nessa paternal sábia união.

 

(Publicado em  Antologia)

 

Mário Matta e Silva

Postado por Liliana Josué

 

publicado por cantaresdoespirito às 21:58

Junho 11 2010

(AO POETA ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA QUE HOJE NOS DEIXOU) 

 

Indefeso percorro meu caminho

Na tristeza de te ver partir

Num terminar de vida

Atribulada e simples

Feita de teus saberes poéticos

Teus valores estéticos

Teus galhofares de ironia sublimes.

 

Sinto tua caminhada, amigo

Numa grandeza morna

E eloquente sabedoria

Desfazendo cada sinuoso dia

De tua vida imensa

Tão plena quanto intensa

Tão ávida de esperança,

 

E vem-me à lembrança

Nossos encontros de saber feitos

Teus ensinamentos perfeitos

E meu acatar do teu saber

Desperto em horas infindáveis

Nos versos tão moldáveis

A essa tua mente criadora.

 

E vou de livro em livro que escreveste

Numa permanência de te haver

Ali sentado, em palavras desfeito

E um trinar de peito

Que te enleva e suspende

Em tudo que se entende

De tuas nobres mensagens.

 

Obrigado amigo

Que no teu saber de hoje, valiosamente antigo

Me estendeste a mão

Num puro, franco e são

Compreender de mim

Tão forte assim

Num jeito que ficou de nós.

 

E vejo teus gestos

Sinto tua voz

E teu acto criador imenso

Que inda agora não dispenso

Porque te continuo a ter

Aqui, sem pressas, a escrever, a escrever

Nesse mar inesgotável de poemas ao qual também pertenço.

                  

  8 de Junho de 2010 

 

Mário Matta e Silva

Postado por Liliana Josué

publicado por cantaresdoespirito às 22:01

Maio 16 2010

Não sei prever

ao escrever

no sentir perverso

em que se derrama

sem fama

o verso.

 

Não sei prever

o futuro

sem que haja um brilho

no semblante duro

para descrever

sem orientação

o avanço

ou trilho

a desilusão

do que procuro

e não alcanço.

 

Sei lá eu até quando

derramarei estes suspiros

se ando e desando

em tropeções…

Sei lá eu conter o comando

no descomando

das emoções?

 

Mário Matta e Silva

Postado por Liliana Josué

 

publicado por cantaresdoespirito às 21:28

Maio 16 2010

Remexi cá dentro, fundo

Enervante coexistir

Ás portas de um mundo

Fechadas para me deprimir.

 

Revolvi segredos e recantos

Sem encontrar fantasmas fugidos

E reduzi a prantos

Os meus sentidos 

 

Mário Matta e Silva

Postado por Liliana Josué

 

 

publicado por cantaresdoespirito às 21:25

Maio 05 2010

 

1

Branca espuma derramada

pela praia cheia de estrelas;

as ondas são vagas belas

que rebentam na amurada.

 

2

Viajo no tempo, e na leveza

do teu sono gostoso, ternurento

relanço os olhos p’ro firmamento

e ofusco-me num clarão de incertezas.

 

3

Salto um ribeiro tranquilo

ou passeio-me exausto na pradaria

no leve passinho dos meus dias

mas sem querer perder um certo estilo.

 

4

Meu descansar em tua beleza

me torna, assim, num sonhador

e nessa Natureza vem um clamor

de sal do mar em mágica leveza.

 

16.08.2008

Mário Matta e Silva

Postado por Liliana Josué

 

publicado por cantaresdoespirito às 00:41

Abril 24 2010

MOTE

 

(…)

Que vai de mim para o Outro”

 

GLOSA

 

Vivo nesta confusão

que me afunda em angústia

e desgraça os meus dias

transporto-me em fantasias

transidas de indecisão

buscando-me lá de longe.

 

Vivo em tempo de existir

reajo p’ra não cair

e não encontro o que quero

tão roído e desgraçado

desatinando em meu fado

com sois que já não espero.

 

Vivo num dar-me vencido

(não sendo eu nem o outro)

pró que não tenho remédio;

procuro algo intermédio

neste percurso de tédio

que vai de mim para o Outro.

 

10.04.2010

 

Mário Matta e silva

Postado por Liliana Josué

 

publicado por cantaresdoespirito às 01:40

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